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TEMPO REVERSO

No instante de criar, depois são fugas

Em corpos, em trajetos, em contactos,

Ou tripulantes percorrendo rugas.

 

Passam por mim as forças que se enfeixam

No cerne de estaleiros e do atos:

— Não construo estas naus, elas me deixam!

(trecho do Soneto IV, “Tempo Reverso”, de Paulo Bomfim)

Ao encontrar o Seu Francisco lendo o jornal e aparentemente sem muita vontade de falar com a gente, confesso que ficamos um pouco intimidadas e imaginamos que o diálogo não fosse fluir - mas, que surpresa! O jeito direto e as respostas não óbvias fizeram que aquela conversa fosse diferente, um encontro que fugia um pouco do que vínhamos nos deparando até então.

Seu Francisco, na primeira percepção, é um senhor digamos que... um tanto rabugento. Manda o cachorro calar a boca. Diz que não gosta dos vizinhos, que mora no mesmo local há 20 anos por falta de opção, assim como desqualifica o período que viveu em Genebra, na Suíça, lugar que detestou. É direto e parece não se importar em agradar, em ser politicamente correto. Fala o que pensa, quebra a expectativa (a maior fórmula para o chiste), e provoca o riso. A impressão que tivemos é que muitas vezes ele tem a consciência, a intenção de ser engraçado - e encarna esse arquétipo.

Um outro lado do Seu Francisco aparece quando a filha Valentina surge na conversa. O olhar doce e o orgulho da filha, que é extremamente gentil e otimista, contrastam com o que parecia ser uma primeira impressão daquele senhor pessimista, sem muita fé na vida e nas pessoas.

O episódio “Tempo Reverso” - assim como o nome da rua sugere e o próprio poema do poeta Paulo Bomfim - fez com que observássemos outros ângulos. Percebemos o quanto todos nós somos complexos, cheios de máscaras que se revelam de acordo com a situação, com os encontros que vivemos. Nos deparamos  também com a dificuldade em entrevistar alguém que traz respostas que não estamos esperando e especialmente em lidar com os temidos silêncios entre perguntas e respostas.

Como não temos uma pesquisa, um roteiro prévio do que perguntar, tentamos nos guiar pelo que a pessoa fala e às vezes é difícil formular uma questão com alguém que inicialmente parece não querer conversar ou se expor. Em muitos momentos nossas perguntas parecem ingênuas justamente para tentar entrar no universo das pessoas da forma mais sutil possível. Em outros porque realmente somos e reagimos de acordo com o que também sentimos ali, naquele encontro: como as risadas diante de respostas tão diretas, por exemplo. Seu Francisco é o tipo de pessoa que faz a gente ver a vida com um olhar mais irônico. A não se levar a sério e a perceber que rir de si mesmo às vezes é menos óbvio do que parece.

Esse episódio é o mais engraçado de toda a série justamente por ter um entrevistado que, mesmo sem abrir o portão de sua casa (foi o único de toda a websérie “Lapa”), foi talvez um dos que mais se expôs, mais disse sem dizer, nas entrelinhas. Seu gestual, suas palavras e o olhar para a filha nos trouxeram textos que vão além do vídeo. Seu Francisco é um desses entrevistados que todo documentarista quer encontrar e felizmente tivemos esse prazer e essa sorte.

 

Simone Castro

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