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SINFONIA BRANCA

No fundo de mim mesmo a casa grande

É ilha no mar verde das lembranças.

Em minha noite há sonhos de petúnia

E redes de luar pela varanda...

(trecho do Soneto IX, do livro “Sinfonia Branca”, de Paulo Bomfim)


 

Não estávamos preparadas para ouvir (e filmar) a história de tia Lilita. Havíamos parado na mureta de sua casa para regular a câmera e o microfone. Naquele dia, nossa ideia era apenas captar algumas imagens da rua e da vizinhança. Até dona Cezira nos abordar.


- Vocês precisam de ajuda?
- Ah, só estávamos organizando nossas coisas aqui!
- Aqui é uma escolinha infantil, sabia?

Histórias surgem quando menos esperamos. Mal temos tempo para refletir: logo em seguida, ela abre a porta da escola (no andar térreo do sobrado) e nos convida a entrar. Começamos a captar imagens ainda meio sem jeito: visitamos todo o espaço e insistimos para que retornemos à frente da casa a fim de continuar a conversa e conhecer melhor a sua história. Fazemos perguntas sobre como é morar no bairro, se tem filhos, como é sua vida e seu dia a dia; mas as respostas são breves e convergem em uma única rotina: “eu cuido da minha tia”.

Não demora muito para aparecer Maria Isabel, uma das filhas de tia Lilita:

- Cuido dos filhos, da mãe e da escolinha. Minha mãe é escritora sabia? Escreveu vários livros infantis e um sobre a história dela e de meu pai. Querem conhecê-la? Vamos, vamos, entrem!

Deitada em uma cama no meio da sala encontramos essa senhora, passando batom para a entrevista, muito vaidosa, que nos devolve as várias perguntas que fazemos durante a conversa:  quantos anos você acha que tenho? quantos filhos você acha que tenho? adivinha qual meu nome verdadeiro?


Durante a gravação, a voz de tia Lilita se confunde com a de sua filha: esta que a interrompe em vários momentos para corrigir informações, memórias e datas que sua mãe nos conta. Percebo o comportamento da filha e lembro momentos dentro de minha própria família: meu avô sofreu um AVC há mais de 10 anos e até hoje tem dificuldades em se lembrar das palavras. Nós, sem paciência, sempre o interrompemos para contar melhor (melhor?) aquela história que ele narra com dificuldade. Que ansiedade é essa que não nos permite ouvir?

Entre memórias, lembranças confusas e aleatórias e um presente muito conectado à sala de estar – em vários momentos, ela narra a reforma feita na sala, hoje o único espaço no qual passa seus dias  – conhecemos sua história. Foram duas horas de gravação condensadas em um episódio de cinco minutos, onde certamente se perdem algumas nuances e sensações, mas que conta a história e o momento de encontro com tia Lilita.

Sheila Ana Calgaro

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