© 2017 Todos os Direitos Reservados  | OUVIDORIA - Ouvidores de Histórias  

  • White YouTube Icon
  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
  • White Vimeo Icon

RELÓGIO DE SOL

Longe de ti eu me sinto

Ave sem pouso e sem lar

Longe de ti sou apenas

A praia longe do mar.

(trecho do poema “Relógio de Sol”, de Paulo Bomfim)


 

Há um bom tempo nós desejávamos ir às ruas e ouvir pessoas comuns, rostos e vozes que cruzavam nossos caminhos. E andava pensando no quanto o audiovisual brasileiro, em especial os programas de não-ficção e, até mesmo o jornalismo, muitas vezes saem tão pautados, com pesquisa de casting, roteiro de perguntas, abordagens direcionadas do que fazer, do que registrar, inclusive do que entrevistado deve fazer ou dizer que às vezes não há espaço para desvios, para algo não programado, para o olhar que o entrevistado traz. Nem sempre há espaço para o erro, para o desconcerto, para o improviso e para o que acontece no encontro, no presente. Para o olhar cotidiano.

 

A série “Lapa” veio da nossa necessidade de colocar a mão na massa, sair do mundo das ideias, dos projetos e fazer. Muito no espírito do punk rock, do faça você mesmo, com os recursos que você tem. Falar sobre coisas que te inquietam. Eu moro no Residencial Central Parque Lapa, um condomínio da década de 60 que reúne 64 blocos e 1024 apartamentos. Ao lado dos prédios há casas em uma sequência de ruas com nomes que me chamaram a atenção: “Tempo Reverso”, “Calendário”, “Sinfonia Branca”, “Relógio de Sol”, “Cantiga do Desencontro” e “Ramo de Rumos”.

 

Sempre me intrigou porque as nossas cidades reúnem tantos nomes de ruas em homenagens a militares, bandeirantes, políticos, figuras vistas como heróis nacionais, nomes que em geral são tão distantes de quem caminha, vive, passa por ali. E pensava qual seria a relação de quem convive naquela rua, naquele espaço e mora em um lugar que se chama Tempo Reverso, por exemplo. A curiosidade e o ponto de partida para nosso projeto piloto e experimento foi tentar conhecer e perceber quem eram os moradores que viviam em ruas com nomes tão poéticos.

 

No primeiro momento, fazendo imagens ou em abordagens com pessoas que não quiseram gravar, éramos vistas sob olhares de estranhamento dos moradores. Apesar desse conjunto de seis ruas estar localizado na Lapa de Baixo,  entre duas linhas de trem, duas grandes avenidas e o Mercado da Lapa, ainda há um aspecto de lugar do interior.  Sob esse cenário de reconhecimento, nos deparamos no primeiro dia com Seu José Antônio Zuaneti. Falamos do projeto e perguntamos se ele sabia porque sua rua, a Relógio de Sol, tinha esse nome. Ele falou que era uma obra do poeta Paulo Bomfim. Foi nosso primeiro entrevistado e sabia a origem do nome! Ele queria que entrássemos em sua casa, mas um dos nossos critérios era gravar do lado de fora - e assim fizemos. Seu José Antônio tem uma dessas generosidades típicas de quem se abre ao novo e acredita nas pessoas. Foi muito receptivo e começou a narrar sua história, enquanto seu cachorrinho, o Floquinho, esperava do lado de dentro da grade. No momento em que começavam a falar sobre uma das coisas mais dolorosas de sua vida - a perda da esposa vítima de câncer -, na casa ao lado uma vizinha liga uma furadeira.

 

A Sheila teve a reação natural de parar a gravação e pedir para a senhora desligar o aparelho, pelo menos no período em que estávamos fazendo a entrevista. Isso certamente é o que qualquer equipe de gravação faria, ou interromperia a entrevista até que o som diminuísse. Mas como vínhamos falando em incorporar o que estava acontecendo no momento da gravação, decidimos (e muito porque eu insisti), que deveríamos continuar gravando ainda que com o ruído. Foi uma escolha difícil e ambígua. Por um lado eu gosto muito do fato de termos assumido o que acontecia ao redor, mas também tivemos que nos responsabilizar pelo incômodo do ruído, das dificuldades na hora de editar, de lidar com o estranhamento.

 

E durante esse som de fundo, José Antônio se emociona ao se lembrar da mulher e da dificuldade em criar sozinho os dois filhos pequenos; dos sonhos que ficaram pelo caminho. Assim como em nossas vidas, às vezes nos emocionamos em meio ao caos. Em alguns momentos tudo parece despencar justamente enquanto estamos no trabalho, no ônibus, em uma festa, em um local público, não reservado. Quando estamos em desespero, mas o mundo lá fora segue sua vida normalmente. E foi isso que tentamos manter no vídeo. Seu Antônio tem uma história de vida que daria um longa-metragem, ou um livro, como todos que entrevistamos, como todas as pessoas. A gente acredita de verdade que todos têm histórias maravilhosas e que a vida e o cotidiano têm uma beleza particular, tão simbólicas como um relógio de sol.



Simone Castro

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now