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RAMO DE RUMOS

 

Ninguém tem culpa

Daquilo que não fomos!

Não houve erros,

Nem cálculos falhados

Sobre a estepe de papel.

Apenas,

Não somos os calculistas

Porém os calculádos,

Não somos os desenhistas

Mas os desenhados,

E muito menos escrevemos versos

E sim somos escritos.

Ninguém é culpado de nada

Neste estranhar constante.

 

Ao longe, uma chuva fina

Molha aquilo que não fomos.

(Poema "Aquilo que não fomos", do livro “Ramo de Rumos”, de Paulo Bomfim)


Ramo de Rumos foi o episódio que nos desafiou desde o momento da gravação à edição final. Por muito tempo decidimos que não iríamos editá-lo: tivemos vários problemas técnicos (de som e de imagem) e pouco conseguimos desenvolver durante a entrevista. Quando lançamos a série “Lapa” já havíamos optado por esquecê-lo nos nossos arquivos. Mas fomos questionadas pelos próprios moradores da Lapa de Baixo que, ao assistirem ao trailer sentiram falta de imagens da Ramo de Rumos e nos enviaram vários comentários e mensagens. Foram eles que nos fizeram lembrar da premissa da Ouvidoria: gravarmos ao acaso, sem produção prévia, histórias que cruzam nossos caminhos, sem descartar os momentos de encontro. Sem descartar nenhuma história, pois cada relato tem o seu valor.

 

Se tivemos problemas técnicos ou nossa “performance” durante a filmagem não nos agradou, era algo que precisaríamos melhorar no futuro, mas que não poderia nos impedir de contar uma história. Também não poderíamos reagendar a gravação com as mesmas pessoas - algo usual quando surgem problemas assim -, pois perderíamos a espontaneidade do encontro.

Aquele foi o nosso primeiro dia de filmagem para a Ouvidoria. Estávamos testando a câmera, o microfone, nos testando como interlocutoras daquelas histórias. E foi desafiador entrevistar Elza e Reginaldo, pois não seguiam o padrão “contadores de histórias” que nos acostumamos a assistir em documentários. As respostas às nossas perguntas muitas vezes vinham vagas ou repetidas, com momentos de silêncio ou desvios de assuntos. Hoje penso: por que então não mudamos o foco ou o tipo de abordagem? Por que desistimos tão fácil daquelas histórias?

 

Foi um desafio assumir a “Ramo de Rumos”, e aqui o fazemos. Revemos todo o material da dona Elza e de seu filho Reginaldo; resgatamos as principais partes em que há menos problemas com o áudio ou com a imagem; e decidimos mostrar como foi aquele relato. Um depoimento que demonstra a familiaridade que ambos têm com a rua onde vivem há mais de 30 anos. Que mostra o quão carinhosos parecem ser na relação com os vizinhos. Que revela a solidariedade da vizinhança durante a morte do filho de dona Elza, em uma casa localizada na mesma rua.

 

Ali existiam sim várias memórias marcantes. Talvez em um outro dia, em outro momento, conseguiríamos registrá-las com mais segurança e profundidade. Ou talvez nem os encontrássemos mais, sentados em frente à casa, olhando o movimento da rua e jogando “conversa fora”. Mas foram eles que proporcionaram este encontro na Ramo de Rumos, naquela tarde de sábado tranquila, enquanto todos estavam fechados em suas casa, enquanto eles eram os únicos ali, abertos à nossa aproximação.

 

Sheila Ana Calgaro

 

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