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PAULO BOMFIM

O encontro com Paulo Bomfim faz parte daqueles momentos da vida em que constatamos: tinha que acontecer. Foi em uma tarde de feriado que ele nos recebeu em sua casa, repleta de livros e móveis centenários, retratos e documentos históricos, e lá ficamos por mais de duas horas. Um encontro marcado pelo afeto, por histórias incríveis e por palavras marcantes que apenas um poeta com mais de 50 livros publicados e um ser humano tão sensível poderia pronunciar.

 

Tinha que acontecer, pois não havíamos planejado registrar sua história. Para ser sincera, iríamos concentrar todas as filmagens nas ruas da Lapa que levam os nomes de suas obras; contar as histórias daqueles moradores e de sua relação com o bairro, sem sair do cenário-rua. Nós mesmas nem sabíamos a origem daqueles nomes e conhecemos a história coincidentemente com o nosso primeiro entrevistado, o seu José Antônio, da Relógio de Sol.

 

Sempre propomos fazer do momento do encontro algo espontâneo e não pré-pautado, muito menos agendado. Estávamos completamente imersas em regras que criamos, a ponto de fechar nosso olhar ao que mais importava: histórias que cruzassem nossos caminhos - nesse caso, de maneira não-literal.

 

Foi uma amiga, que desconhecia o tema da série “Lapa”, em uma conversa despretensiosa, quem falou: “este último final de semana estive com o Paulo Bomfim, o poeta, sabe? Meu pai era muito amigo dele”. Lembro que minha expressão foi de completo espanto: mais uma vez, iríamos negar aquela coincidência? Tinha que acontecer.

 

Teríamos que telefonar e agendar a entrevista. Puxa vida, estávamos indo contra nossa regra número 1: filmar uma história sem produção e aviso prévio! Lembro que, na primeira vez, ele estava muito desconfiado e pediu para ligar outro dia. Foi apenas na segunda chamada, quando tive a oportunidade de explicar como consegui seu contato, que concordou em participar. Horas antes da entrevista estávamos com muito receio: “será que ele iria nos receber bem?, “será que estaria de bom humor?, “será que seria uma boa conversa?”.

 

Paulo abriu a porta, com um sorriso largo que fez desaparecer toda a nossa ansiedade. O que vocês fazem? Onde estudaram? Por que Ouvidoria? Respondemos tudo com detalhes e mostramos alguns episódios da Lapa. “Ah, mas lá ninguém sabe por que as ruas levam esse nome, né?”. Qual foi sua surpresa ao assistir à história daqueles moradores e a revelação de que alguns conheciam exatamente o seu significado. “Depois de ver tudo isso, estou pronto! Vamos começar!”

 

Ele, com suas histórias incríveis, uma memória precisa e frases que até hoje ressurgem em nossas lembranças. Sua namorada Fafá, que o olhava com admiração e complementava suas respostas. Ele, que narra com detalhes a São Paulo do início do século 20, do centro movimentado pela indústria cafeeira, dos rios ainda não retificados, de uma cidade iluminada por lampiões. Eles, que estavam ali, abertos para nos receber com um afeto incondicional.

 

Mesmo naquela conversa agendada, houve a espontaneidade e a naturalidade de um primeiro encontro. O próprio Paulo nos confidenciou que estava cansado de conceder tantas entrevistas, mas que ali sentiu-se bem, sentiu-se ouvido. E nós, com os olhos vidrados em cada expressão, a escuta atenta a cada palavra marcante, saímos de lá em êxtase.

 

A entrevista, editada em pouco menos de 10 minutos, é apenas uma parte das lembranças que ouvimos daquele encontro; um extrato de um momento que fez total sentido para nós. Não foi somente o fechamento perfeito para a série. Foi o significado completo para a Ouvidoria.

 

Tinha que acontecer, era para acontecer.

 

Sheila Ana Calgaro

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