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CANTIGA DO DESENCONTRO

Onde larguei a inocência,

A voz, o sonho, a distância,

Se os manacás reflorescem

Além dos muros da infância!

(trecho do poema “Cantiga do Desencontro”, de Paulo Bomfim)

 

 

Danilo, Tatiane e Cida formam o episódio “ideal” da Ouvidoria. Não que tenha sido o melhor episódio da série: cada personagem tem sua história, cada vídeo uma particularidade. Mas sabe quando você planeja que a captação vai ser assim, assim e assado?

 

No nosso caso, quando criamos a Ouvidoria, tínhamos como proposta sair pelos bairros da cidade, sem produção prévia, para captar histórias ao acaso - esse “método” está presente em toda a série Lapa. Mas nossa ideia inicial era que, a partir da história de um primeiro personagem, este mesmo nos indicaria outra pessoa na vizinhança:  simples, fácil, sempre alguém conhece alguém por perto e uma pessoa se conecta à outra. Que engano... Se a maioria de nós não conhecemos nosso vizinho de porta, não podemos exigir o mesmo dos outros.

 

Saímos em uma primeira diária na Lapa e encontramos seu Antônio - na próxima semana divulgaremos esse episódio. Ele até indicou uma vizinha, que não se encontrava em casa naquele dia. Continuamos então em busca de alguém que pudesse indicar outro e assim sucessivamente: acabamos nós mesmas encontrando pessoas ao acaso - e criando a nossa “própria vizinhança” para a série.

 

Naquele mesmo dia, Danilo passou duas vezes por nós, ficou caminhando pela rua, desconfiado destas duas andarilhas com uma câmera.  “Vocês estão gravando um filme?”. Explicamos então o objetivo da Ouvidoria. “Ah, então vocês têm que falar com minha esposa, ela nasceu e cresceu aqui na Lapa!”.

 

No portão, aparece Tatiane. Voz suave, meio tímida, não sabia ao certo como contribuir. “Tem gente que mora aqui há mais tempo e conhece mais história que eu, não sei se posso ajudar”. Ela que brincou na rua desde criança, tocou violão nas calçadas da Lapa na adolescência e hoje vê seu filho correndo pela Cantiga do Desencontro de pés descalços, na verdade, tinha muitas histórias saudosas para contar.

 

Foi interessante perceber como o Danilo, que nasceu na Vila Mariana, na região sul de São Paulo, via com certo preconceito a Lapa antes de morar lá. Ele representa muitos paulistanos que enxergam em seus bairros um mundo particular: sua conexão com este território - só a Lapa tem mais de 60 mil habitantes - acaba sendo mais forte do que a relação com a cidade. Ser “bairrista” fortalece a sensação de pertencimento a um lugar, de tornar esta megalópole menor e mais pessoal, sem se perder em seus 12 milhões de habitantes.

 

Durante a entrevista, Cida passa na rua e cumprimenta ambos em uma cena muito cotidiana. “Olha, Cida! Dá uma entrevista aqui pra elas!”. Finalmente iríamos vivenciar o tão sonhado episódio, onde uma pessoa indicou a outra. Terminamos a entrevista com o casal e na mesma hora fomos bater palmas no portão da casa de Cida, moradora da rua  há mais de 30 anos.

 

Mineira, perdeu os pais cedo e começou muito jovem a trabalhar no sobrado onde até hoje ainda vive. “Aqui é minha família”, repetiu durante muitas vezes. “Aqui, criei os filhos deles e a minha filha, que também acabou se tornando filha deles”. Nós, querendo problematizar suas escolhas, questionamos o fato de estar longe de outros parentes ou de morar em seu local de trabalho há tantos anos. Ela repetia com muita tranquilidade e carinho nas palavras: “tem nada não, meu cantinho é aqui, e esta é a minha família”.

 

Ali estava alguém que parecia muito feliz com sua vida, a família que escolheu, sua rotina, e sua rua. Deixamos então nossas questões “academicistas” de lado: estávamos ali para ouvir, e não julgar; para escutar e não premeditar.

 


Sheila Ana Calgaro

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